Eu terminei meu último post megalomaníaco dizendo que em 2006 começou a se moldar com maior evidência um novo momento, na direção oposta da hiperfeminilidade óbvia e vulnerável dos anos anteriores, e prometi falar dos desdobramentos disso. Que são muitos! E pra poder entender o que está se passando nas semanas de moda do mundo, a gente tem que ter isso mais ou menos entendido; portanto eu muito pretensiosamente vou tentar explicar.
Em primeiro lugar, eu acho que moda não é só roupa (claro que não é). Moda não diz só da roupa, mas diz também desse corpo, essa materialidade humana que veste essa roupa. Da mesma forma que a arte não fala apenas da arte, mas ela parte de uma realidade material, e muitas vezes questiona essa própria realidade. No caso da moda, a realidade é o corpo. E a moda serve não só como algo utilitário e prático e não reflexivo: a moda questiona o corpo. Se a gente levar isso ainda mais adiante, vai ver que a moda pode ser ainda mais que sobre as roupas, e sobre o corpo: ela é também sobre a mente, o espírito, a imaginação, sei lá que nome dar pra isso. E por ser também sobre a mente, ela é um pouco sobre a loucura…
Uma coisa que eu acho importante marcar é que em vários veículos e blogs, inclusive nesse aqui, a gente vai ler pessoas falando sobre como as roupas comunicam algo sobre você, sua maquiagem comunica algo, seus sapatos, seu trabalho, suas escolhas alimentares, tudo que constrói sua rotina e enquadra o espaço que você ocupa no mundo, diz sobrevocê. Ou seja, tudo pode ser ‘lido’, tudo é texto (a ‘textualização’ de tudo é uma coisa que surge das teorias pós-estruturalista e pós-modernista – não fiquem com preguiça!) Ano passado eu li uma entrevista da Miuccia Prada (amém), dizendo isso:
“Chegou a hora das roupas serem ao mesmo tempo belas e intelectualmente provocamentes. Eu quero que minhas roupas sejam fortes, tanto intimamente quanto politicamente.”
Existe muito pensamento que vai por trás de uma roupa, muito pensamento MESMO. E o que eu quero tentar fazer aqui é propor discussões legais sobre esse imbricamento.
No “Manifesto Ciborgue’ da Donna Haraway, ela diz assim:
“Não existe nada no fato de ser “mulher” que naturalmente uma as mulheres. Não existe nem mesmo uma tal situação – “ser” mulher. Trata-se, ela própria, de uma categoria altamente complexa contruída por discursos científico sexuais e de outras práticas sócias questionáveis.”
Quando a gente abraça a pós modernidade (hah), a certeza daquilo que antes contava como natureza, como natural, é abalada. E aí a gente se dá conta que nenhuma construção é uma totalidade. Nesse começo de século XXI, as coisas que estão em jogo são os territórios da produção, da reprodução e da imaginação. E eu vou ser sempre a favor do prazer da confusão de fronteiras, bem como em favor da responsabilidade na construção delas!
O Manifesto de Donna Haraway é uma crítica contra a fictícia categorização (na visão dela é ficção essas separações) ocidental sobre os gênereos e sobre os corpos. O tal ciborgue do manifesto seria o lugar para onde dualismos confluem: humano/animal, homem/mulher, e por aí vai. Ela diz que as fronteiras que separam o que é humano e o que é animal estão se mostrando cada vez mais frágeis, que não existem mais argumentos realmente convincentes que sustentem essa separação. Diz que vários movimentos culturais tem buscado reafirmar o prazer da conexão humana com outras criaturas vivas. E o que isso tem a ver com a moda? Tudo! Stella McCartney recentemente esteve no centro de uma confusão enorme, porque usaram as lingeries dela no styling do anúncio de uma marca de casacos de pele. A Stella é mega ativista contra o uso de peles – recentemente ela esteve envolvida com manifestações contra os chapéus dos guardas do Palácio de Buckingham, que são feitos de pele de urso. Segundo a Donna Haraway, a proliferação desses movimentos em prol dos direitos animais não tem nada de negação da singularidade humana: eles são sim resultado do reconhecimento da conexão antes descredidata entre a natureza e a cultura.
[no don't touck my moleskine tem uma pesquisa intensa sobre a tendênciam do zoomorfismo nas fotos... vocês não acham que pode ter a ver com a tal da pósmudernidade não?]

ikeliene stange fazendo cosplay de coelhinho na dazed and confused

backstage da luella outono/inverno 08: o batman tamém e tendência!

batman meets bunny
Quando a gente pensa nessa confusão toda, fica mais fácil entender a dificuldade já anteriormente mencionada aqui no blog de fazer escolhas de vestuário que falem corretamente desse indivíduo que está por trás dele. E aí a gente entende mais ainda essa tendência de passar do ladylike para uma nova elegância sóbria que conjuga masculino e feminino, peso e fragilidade, futurismo e folclore/artesanato, força, androginia – enfim, INDETERMINAÇÃO. Ser muderno é saber transitar no meio disso tudo. E pra isso a gente precisa de humor, de não se levar muito a sério, e segundo a Donna Haraway, a gente precisa de um pouco de ironia também. Porque?
“A ironia tem a ver com contradições que não se resolvem – ainda que dialeticamente – em totalidades mais amplas: ela tem a ver com a tensão de manter juntas coisas incompatíveis porque todas são necessárias e verdadeiras.”
Já a Diana Vreeland um dia disse que elegância não tem nada a ver com estar ‘bem-vestido’. Elegância é recusa. Isso tem TUDO a ver com o que tá acontecendo na moda agora. A gente consegue ser assertivamente chic muito mais com contrastes originais do que tentando ser drop dead glamourosa e impecável. Acaba ficando caricatural demais. Não dá pra ficar dando uma de rica o tempo todo (guarde para ocasiões específicas), porque senão fica chato. Não precisa ser óbvia, mas também não precisa ser modesta né? Esses dias li no blog da jornalista Simone Esmanhotto um texto que me chamou a atenção:
“ … nessa estacão alguma coisa aconteceu. O masculino de repente tinha alguma coisa a me ensinar (…)ademais, não acho nada mal a gente voltar para os básicos. revisados, sem dúvida, com novas formas, comprimentos, volumes. também não acho nada mal voltarmos para o pensamento básico: a roupa é boa, tem bom corte, bom tecido, bom custo-benefício?”
É exatamente isso que tem acontecido! O masculino tem realmente muito a ensinar pra gente, principalmente a não ter o olhar tão formatado e certinho na hora de pensar que ‘isso é masculino’, e ‘isso é feminino’. Sabe, o oposto do masculine dressing não é um vestido! De novo eu volto ao pensamento das construções não serem totalidades!
Ultimamente a gente tem visto nas passarelas roupas tão elaboradas que são até confusas, que alteram radicalmente a imagem da forma humana – nada é ortodoxo, nem nos volumes nem na silhueta – e a gente tem visto uma variedade incrível de comprimentos, de amplitudes, de formas. Os volumes dão uma idéia de quem tá flutuando, e por isso a interessância do contraste com sapatos enormes e pesados – como se fossem eles que mantivessem a gente com os pés no chão. Todos esses volumes e proporções malucas acabam criando um efeito de irrealidade, que completamente modifica a imagem daquele corpo que está por trás dos tecidos. Não é a coisa mais divertida do mundo? Alber Elbaz disse sobre essas novas proporções: “A roupa se torna você. Não é fácil, não é óbvio, mas o resultado é maravilhoso!”
Resultado: as roupas andam mais complicadas, mais estruturadas, e muito mudernas! Praticamente removem a vulnerabilidade da moda feminina e gente, isso não é apenas uma escolha estética, mas é política também!
Agora vamos às evidências:
a) os desfiles de outono/inverno 08, que a gente tá vendo agora nos editoriais das revistas de lá (todas as fotos via style.com)

mistura de frágil com forte, renda com vinil, e as botas peep toe fetiche que foram mega hit dessa temporada

vestido em color blocks do futuro na ysl de stefano pilatti

ysl e androginia meets fetichismo - tachas andam sendo vistas nas ruas de novo, só que contextualizadas diferente. não tente se você for muito jovem que podem te confundir com os emos. acreditem, EU SEI.

julian louie - queridinho da susie bubble e da kate lanphear - e um novo olhar no corcunda de notre-dame?

charlotte gainsbourg minimalistacontemporânea nos ads de outono-inverno balenciaga

ghesquière também curte as botas do futuro - menos do futuro que as givenchy né?
b)o que tem aparecido nos editoriais de setembro/outubro.

- as novas guerreiras – vogue italia em setembo de 2008

roupas mega estruturadas em um cenário super orgânico -parceria de gareth pug com nick night na dazed and confused de outubro

ainda a dazed and confused - dá pra ver a mulher guerreira da vogue itália aqui também!

a is for androginy - editorial da interview de setembro de 2008

na vogue francesa - sasha pivovarova vestindo ysl. uma idéia que apareceu aqui e também aparece nos desfiles de verão é o cabelo maria antonieta contemporânea: porque volume é mesmo muito legal!

vogue francesa - olha como dá pra ser simples e complicado ao mesmo tempo! balenciaga top, pantalona yohji yamamoto
c)dois exemplos de meninas transportando algumas dessas idéias pra vida real.









7 Comments
19 September, 2008 at 7:14 pm
oi, luzinha, adorei esse conteúdo todo. te adicionei. bjs, simone
19 September, 2008 at 9:54 pm
luluzinha!!!
amei você citando Donna Haraway!!! Orgulho feminista da juju!
mas aqui! e os volumes do viktor & rolf? eu sei que você acha que eles tão mais perto do nosso tempo, mas eu acho tão do futuro! e acho que tem super a ver com essa [im]possibilidade [ó como eu tb sei escrever i-gual pós moderna] do feminino e tudo mais!
me conta o que você acha?!
beijos
21 September, 2008 at 12:39 am
menina, que estudão, hein? arrasou! =)
23 September, 2008 at 1:03 pm
Oi Lu. Este blog aqui chega a me dar dor de cabeça, no bom sentido assim. Não sei se concordo com o que eu entendo, mas com o que desconheço dá pra imaginar um outro mundo coerente onde eu não quero viver! Recuso pela elegância rá rá. Minha vida era mais fácil quando eu só vestia roupas feias que não combinavam. Agora quando eu penso nisso eu já quero me virar pro lado e correr. Pelo menos enquanto eu lembro de você ahazando na pós-mudernidade!
orgulhou bangu,
bj
23 September, 2008 at 5:59 pm
theodoro, você me mata de rir. nem acredito que você teve paciência de ler isso! eu que morro de orgulho! haha. e não tem jeito de sair correndo theo…correr pra onde? fica aqui, que a gente tá super evoluindo…evoluindo que nem os índios!
23 September, 2008 at 6:01 pm
jujuzinha, no dia que aprender a usar meu scanner eu vou fazer um post viktor &rolf em sua homenagem! eu ainda acho eles muito do futuro, e eles são do futuro a mais tempo né? eles tão quase um futuro vintage! ahhaha. parei. saudadji juju. e assim, sobre o orgulho feminista de juju, um dia eu chego lá!
23 September, 2008 at 6:02 pm
fê brigada, que bonita você aqui! :~~